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Exposições // PASSADO

Exposição:
O corpo, a sexualidade e o erótico na obra de Júlio Pomar (2019)
Instalação concebida por Salomé Lamas

Curadoria:
Sara Antónia Matos / Pedro Faro

Artista:
Salomé Lamas

16.10 // 27.10.2019

Inauguração:
15.10 – 18 horas

 

Texto de Sara Antónia Matos e Pedro Faro

 

O Atelier-Museu Júlio Pomar, na sequência da exposição “Formas que se tornam outras”, de Júlio Pomar, apresenta a instalação O corpo, a sexualidade e o erótico na obra de Júlio Pomar (2019), concebida por Salomé Lamas.

Esta peça, que a artista realizou a convite do Atelier-Museu, estabelece correspondências livres entre os escritos do pintor e o seu trabalho pictórico, concentrando-se principalmente nas explorações e preocupações em torno do corpo, da sexualidade e do erótico. Na conceção e construção da peça, Salomé Lamas teve como motor de trabalho uma ideia de Honoré de Balzac:

“Em seus momentos de desespero, ele afirma que o desenho não existe e que não é possível obter com traços senão figuras geométricas; [...] o desenho dá o esqueleto, a cor é a vida, mas a vida sem o esqueleto é uma coisa mais incompleta que o esqueleto sem a vida”. (Honoré de Balzac, Le Chef-d’œuvre inconnu)

Na nota de pesquisa que acompanha a instalação, a cineasta desvenda o processo de trabalho, explicando a constituição da peça. A obra pictórica foi escolhida de acordo com o tema do trabalho, podendo dizer-se que, em Júlio Pomar, o corpo é inicialmente um corpo de trabalho, social e político, mais tarde um corpo erótico e depois um corpo mítico, maravilhoso. Na seleção de imagens não foram abrangidas encomendas à exceção da colaboração com Maria Velho da Costa em Corpo Verde e do Mural do Café Batalha. Em forma de pequeno apontamento, foram incluídos um desenho de infância e no extremo oposto, uma das caveiras de Pomar, caveiras que, como notou Helena Vaz da Silva quando entrevistou o autor, parecem dançar. A obra literária, à exceção dos textos referentes a Corpo Verde, é da autoria de Júlio Pomar. Para além dos seus escritos, foram usados excertos de entrevistas publicadas em jornais e transcrições de entrevistas televisivas.

 

Em 2014, convidando Catarina Mourão a realizar uma obra para a exposição “Tratado dos Olhos”, com curadoria de Paulo Pires do Vale, o Atelier-Museu Júlio Pomar deu início a uma perspetiva vinda do cinema, a qual envolve realização de obras de cineastas, que no seu percurso se têm cruzado e relacionado com produção das artes plásticas.

A proposta de Salomé Lamas, a mostrar na sequência da exposição “Júlio Pomar: Formas que se tornam outras”, sobre a dimensão erótica no percurso deste artista, é singular no formato sugerido, relembrando processos de análise quase Godardianos sobre a presença das imagens e dos conceitos no universo da pintura, evidenciando a dimensão táctil / háptica das imagens. Salomé Lamas direciona o seu olhar para a sensualidade e o erotismo nas obras de Pomar e de um modo intuitivo avança muito para além daquilo que são as habituais análises iconográficas e historiográficas, cruzando a voz do artista, através da utilização de excertos dos seus textos críticos e de imagens de obras realizadas ao longo de mais de 70 anos.

Numa instalação feita com projetores de slides, com som, Salomé Lamas usa imagens de arquivo, por vezes mostrando excertos de obras. Estas imagens são alteradas, sublinhando algum elemento ou reforçando aquilo que pretende ser comunicado - processos, matérias, metodologias, referências -, questionando a linearidade e insuficiência daquilo que é tradicionalmente considerado o conteúdo de uma obra. O que é o conteúdo de uma obra? De uma imagem? O que está figurativamente representado ou também a sua dimensão matérica e formal?

Na realização da obra, Salomé Lamas, partindo da consulta de livros publicados sobre o artista, de vários ficheiros digitais e outras informações, na impossibilidade mas ambição de tudo ver, problematiza também a ideia de “Arquivo”. Ao fazê-lo, questiona o modo como a História da Arte, com os seus critérios científicos, e por vezes alguma moralidade, arruma, categoriza e fixa modos de ver. Nesta obra, pondo em jogo uma dimensão autoral, a sua, Salomé Lamas reorganiza e edita fragmentos, de um património cultural comum, fazendo lembrar Godard no Livro da Imagem:

 “Ainda te lembras de como antes exercitávamos o pensamento? Costumávamos partir de um sonho. Perguntávamo-nos como era possível que, na obscuridade total, em nós surgissem cores de tal intensidade. Diziam-se grandes coisas, coisas importantes, espantosas, profundas e justas, num tom de voz doce e baixo. Imagem e palavra.”

Salomé Lamas realiza esse exercício de pensamento, focando-se numa obra tão prolixa como a de Pomar, a partir da qual se pode entrar em tantos domínios da vida, da história, da sociedade, da criação. As suas opções narrativas exploram a fragmentação através do processo de edição. Melhor dizendo, Salomé Lamas usa metodologias de colagem - técnica cara a Pomar naquele que é considerado o seu período mais erótico - para abordar e relevar possibilidades de compreensão sobre o gesto criativo de um pintor.
A obra que a cineasta realizou, perante o desafio que lhe foi lançado, expõe os meandros de uma relação amorosa e os seus ciclos de encontros, paixões e conflitos, sob a forma de uma narrativa visual intrigante e experimental, em torno das imagens e do pensamento de Pomar.  A obra do pintor, mas também a que produziu a cineasta, aludem a Fragmentos de um discurso amoroso?

Para Roland Barthes: “É um retrato - se assim o quisermos entender - o que aqui se propõe; mas este retrato não é psicológico; é estrutural: permite conhecer uma situação da palavra: a situação de alguém que fala por si, apaixonadamente, diante do outro (o objeto amado), que não fala.”

Cruzando imagem e palavra, a peça realizada por Salomé Lamas coloca ainda a ferida na problemática: palavra vs imagem. Na instalação, as imagens são projetadas de um lado e os textos do outro, tocando-se ao centro, na aresta comum aos dois ecrãs – os quais parecem fundir-se na escuridão do museu à medida que o tempo passa e que as imagens ficam cada vez mais escuras. As imagens e o texto parecem ainda ser absorvidas pelo som da instalação – mais um elemento na convocação e excitação dos sentidos – fazendo sobressair a interdependência entre as componentes imagéticas, verbais e sonoras, as quais segundo Pomar não eram subsidiárias umas das outras.

Construída a partir de imagens disponíveis em arquivos, na sua maioria fornecidas à cineasta pelo Atelier-Museu e pela Fundação Júlio Pomar, Salomé Lamas assume a pouca qualidade de algumas imagens, resultado da passagem do tempo por esses arquivos, outras vezes, vicissitudes e condicionantes de ordem variada que impediram a feitura de uma documentação exata das obras. Nesse aspeto, Salomé Lamas assume aquilo que de mais característico encorpa o seu trabalho, isto é, instala a dúvida sobre a fronteira entre a verdade factual e a ficção. Ao fazê-lo sublinha as propriedades epistemológicas do documento e do documentário, o significado das imagens na cultura, relembrando o que diz Godard em Je vous salue Sarajevo:

“Pois há uma regra e uma exceção. Cultura é a regra. E arte a exceção. Todos falam a regra: cigarro, computador, camisetas, TV, turismo, guerra. Ninguém fala a exceção. Ela não é dita, é escrita: Flaubert, Dostoiévski. É composta: Gershwin, Mozart. É pintada: Cézanne, Vermeer. É filmada: Antonioni, Vigo. Ou é vivida, e se torna a arte de viver: Srebenica, Mostar, Sarajevo. A regra quer a morte da exceção. Então a regra para a Europa Cultural é organizar a morte da arte de viver, que ainda floresce. Quando for hora de fechar o livro, eu não terei arrependimentos. Eu vi tantos viverem tão mal, e tantos morrerem tão bem.”

 

Esta obra de Salomé Lamas que foi feita para mostrar na sequência da exposição “Júlio Pomar: Formas que se tornam outras” – e que, se espera, permita ampliar e potenciar formas de leitura da obra do pintor – passará a integrar a coleção do Atelier-Museu Júlio Pomar, ficando disponível para integrar outras exposições organizadas por este museu ou instituições artísticas.

 

 

Biografia

Salomé  Lamas  (1987,  Lisboa)  estudou  cinema  em  Lisboa  (Escola  Superior  de  Teatro  e  Cinema)  e  Praga  (Filmová  a  Televizni  Fakulta  Akademie  Múzick’VCH V  Praze),  Artes  Visuais  MFA  em  Amsterdão  (Sandberg Instituut, Gerrit Rietveld Academie) e é doutoranda em Arte Contemporânea em Coimbra (Universidade de Coimbra).

O  seu  trabalho  tem  sido  exibido  tanto  em  contextos  artísticos  como  em  festivais  de  cinema tais  como Berlinale,  BAFICI,  Museo  Arte  Reina  Sofia,  FIAC,  MNAC  –  Museu  do  Chiado,  DocLisboa,  Cinema  du  Réel, Visions du Réel, MoMA – Museum of Modern Art, Museo Guggenheim Bilbao, Harvard Film Archive, Museum of Moving Images NY, Jewish Museum NY, Fid Marseille, Arsenal Institut fur film und videokunst, Viennale, Culturgest, CCB - Centro Cultural de Belém, Hong Kong FF, Museu Serralves, Tate Modern, CPH: DOX, Centre d’Art Contemporain de Genève, Bozar , Tabakalera, ICA  London,  TBA 21 Foundation, Mostra de São Paulo, CAC Vilnius, MALBA, FAEMA, SESC São Paulo, MAAT, La Biennale di Venezia Architettura, entre outros.

Lamas  recebeu  diversas  bolsas,  tais  como  a  Gardner  Film  Study  Center  Fellowship  –  Harvard  University, Rockefeller  Foundation  –  Bellagio  Center,  Fondación  Botín,  Fundação  Calouste  Gulbenkian,  Sundance, Bogliasco  Foundation,  MacDowell  Colony,  Yaddo,  Berliner  Künstlerprogramm  des  DAAD.  Colabora  com  a Universidade Catolica do Porto e à Elias Querejeta Zine Eskola. colabora com a produtora O Som e a Fúria e é  representada pela Galeria Miguel Nabinho  –  Lisboa 20.


Links
www.salomelamas.info

 

 

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