
Prémio Pintura Júlio Pomar – 2026*
Atelier-Museu Júlio Pomar
JORGE QUEIROZ
Júri: Catarina Rosendo, Eva Mendes e João Laia
Presidente de Júri: Sara Antónia Matos
*O Prémio de Pintura Júlio Pomar-2026 tem o Patrocínio de Teresa Martha (cineasta e viúva do pintor)
No âmbito do programa de celebrações do centenário de Júlio Pomar e da atribuição do Prémio Pintura – Júlio Pomar, o Júri, composto por João Laia, Eva Mendes, Catarina Rosendo e presidido por Sara Antónia Matos, em representação da instituição, reuniu no dia 7 de Julho de 2026, a fim de eleger o vencedor.
Considerando as nomeações apresentadas, reunindo um grupo de artistas cuja obra se considerou de elevada pertinência, o Júri, composto pelos curadores: Catarina Rosendo, Eva Mendes e João Laia, teve em conta, na apreciação das propostas e na escolha do vencedor do Prémio, aspetos como originalidade e linguagem próprias; a abertura de novas possibilidades para o campo da pintura e da arte; a coerência/consistência e o percurso dos artistas (podendo ser valorizada a carreira emergente tanto como a maturidade e experiência dos autores).
Do conjunto e da qualidade dos autores nomeados, o júri decidiu atribuir a distinção, Prémio Júlio Pomar – Pintura 2026 a Jorge Queiroz pelos argumentos a seguir expostos.
Nas palavras do próprio Júri:
Desde que, em 2015, apresentou as suas primeiras obras em pintura, no Pavilhão Branco, em Lisboa, Jorge Queiroz vem-se assumindo como um dos mais destacados artistas portugueses a trabalhar no campo da pintura, na sequência de um percurso de várias décadas que se iniciou pela prática do desenho e pela formação, em 1991 e 1993, em Pintura no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação, em Lisboa (1991 e 1993) e, em 1999, na School of Visual Arts em Nova Iorque, cidade onde residiu até se estabelecer em 2004 em Berlim, regressando a Lisboa mais tarde. Continuando a dedicar-se ao desenho a par da pintura, entre ambas as formas de expressão, Queiroz tem demonstrado uma notável coerência e maturidade artística, assente numa indagação intuitiva da imaginação livre que perscruta as relações entre a arte e a realidade, ou entre o desenho/pintura e o mundo, dando forma a impressões e procurando alcançar o irracional e o indizível que se mantém latente na experiência das coisas.
No trabalho de Queiroz as imagens parecem ser construídas sobre ímpetos que oscilam entre um profundo entendimento da pintura e a permissão do acaso. Permeadas por uma tendência para a abstração, as imagens fogem ao seu próprio desmembramento para se encontrarem em vestígios – mais ou menos evidentes – de figuras e objetos que habitam os seus diferentes planos. Como que refratando a luz, paisagens mentais ampliam-se e multiplicam-se no interior da imagem, emergindo segundo as exigências da própria pintura e determinando em si uma qualidade muito fina de composição pictórica.
Através de uma constante reflexão sobre o seu próprio trabalho e sobre a história das imagens pintadas, o artista dedica-se à construção de espaços pictóricos que retêm o fluxo intempestivo da memória, das ideias e dos encadeados associativos. O seu método de trabalho é assumidamente processual e a gestualidade automática mais evidente nos seus desenhos foi dando lugar, gradualmente, a um trabalho mais aturado com a cor, na criação de obras onde pequenos fragmentos de arquiteturas, pessoas e paisagens se inscrevem, como que suspensos, numa acumulação e justaposição de manchas e traços de cores exuberantes que confundem escalas, corrompem formas, tornam indefinido o abstrato e o concreto, fazem coincidir a ordem com a desordem e fogem da linearidade narrativa. As suas “cenas” como que buscam as imagens geradas pelo contato originário com as coisas que a memória dissolve, explorando o equivalente pictórico entre os espaços interiores ou as paisagens mentais do próprio artista, e os espaços exteriores onde a representação ganha forma e se dá ao espectador.
As obras de Queiroz funcionam por camadas ou estratos que se vão sucessivamente alimentando uns aos outros, resultando em imagens originais e imperscrutáveis que escapam à determinação espacial e temporal, naquele que é um aspeto absolutamente singular da sua linguagem e que é particularmente visível nas suas pinturas. Aqui, manchas, figuras e relações visuais e sensoriais de toda a espécie parecem coexistir no mesmo lugar e ao mesmo tempo, localizadas num espaço-tempo em constante devir, fluido e transiente. Na sua fixidez material, ou não se tratasse de pintura, as suas obras têm uma paradoxal aparência constantemente renovada. Trata-se de imagens sempre em transformação, com os seus elementos constituintes fundindo-se uns nos outros e criando ligações entre si, imagens que se desfazem e refazem perante o espetador, que perante elas adota, para melhor as apreender, um olhar inquieto, de tipo paisagístico.
A linguagem trabalhada na prática de Queiroz é de uma singularidade que poucos autores conseguem alcançar. Cada gesto—seja este exercido sobre o papel, a tela, ou até mesmo alguns objetos escultóricos – é tão profundamente autoral que é, de facto, muito improvável o seu não reconhecimento. Compreendendo uma verdadeira predisposição para a desagregação e consequente reconfiguração de categorias pictóricas, quer formalmente (nomeadamente falando de decisões de montagem e dispositivo), quer plasticamente (servindo-se de um conjunto heterogéneo de materiais de inscrição), sucede que Jorge Queiroz introduz uma espécie de nova tendência na pintura (não só portuguesa, como internacional). A robustez, ousadia, acuidade e inteligência presentes na construção destas imagens determinam a sua crescente longevidade.
O Atelier-Museu Júlio Pomar agradece aos três elementos do júri – Catarina Rosendo, Eva Mendes e João Laia – a seriedade e profissionalismo colocado na nomeação e discussão das propostas e da obra dos autores nomeados, e pela credibilidade e reconhecimento trazido à discussão.
Como não poderia deixar de ser, congratula o vencedor pela excelência da obra desenvolvida e por ser o primeiro representante deste prémio que carrega e homenageia o nome de um pintor!