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Exposições // PRESENTE

Exposição:
ANTES DO INÍCIO E DEPOIS DO FIM:
JÚLIO POMAR E HUGO CANOILAS

Curadoria:
Sara Antónia Matos

Artistas:
Júlio Pomar e Hugo Canoilas

09.11.2019 // 01.03.2020

Inauguração:
08.11 – 18 horas

 

 

A exposição Antes do Início e Depois do Fim: Júlio Pomar e Hugo Canoilas, com curadoria de Sara Antónia Matos, dá seguimento a um programa de exposições do Atelier-Museu que, todos os anos, procura cruzar a obra de Júlio Pomar com a de outros artistas, de modo a estabelecer novas relações entre a obra do pintor e a contemporaneidade. Deste modo, esta exposição é pensada, desde a sua génese, como uma intervenção específica no espaço do Atelier-Museu. Ao longo dos vários meses, a exposição sofrerá, ciclicamente, algumas metamorfoses/ transformações.

Numa abordagem ficcional que procura pensar sobre o que já estava antes do início do mundo (humanidade) e o que ficará depois do fim do mundo (humanidade), problematizando a relação da arte com a ideia de extinção, biodiversidade e de coexistência planetária, a exposição mostra por um lado a enorme diversidade de animais que Júlio Pomar representou ao longo de mais de 70 anos na sua obra, em diferentes técnicas e suportes. Combinando arte, investigação e documentação, o trabalho de Júlio Pomar é enformado por um património crítico que lhe permite abordar a natureza descontraidamente, sem pretensões de apresentar um conhecimento moldado pelos pressupostos da ciência. Natureza, olhar científico e olhar artístico conjugam-se num discurso que ultrapassa as determinações disciplinares e garantem um resultado final revelável em diferentes camadas de informação.

Por outro lado, e em diálogo com a obra de Júlio Pomar, de Hugo Canoilas mostra-se um extenso corpo de trabalho que o artista tem desenvolvido nos últimos anos em torno de uma figuração por vezes pré-histórica ou pré-apocalíptica, e por vezes pós-apocalíptica, numa espectacular tentativa crítica de pensar sobre a sociedade, sobre a relação com a arte e com a natureza através da arte.

O que implica a criação? E a percepção? Qual é a verdade da natureza? Quais são as origens do fazer artístico? No diálogo “O Declínio da Mentira”, Oscar Wilde sublinhava que “quanto mais estudamos a Arte, menos nos interessamos pela Natureza. O que a Arte realmente nos revela é a ausência de ordem na Natureza, as suas cruezas bizarras, a sua extraordinária monotonia, o seu estado irreparavelmente inacabado. (...) Quando olho para uma paisagem, não consigo deixar de ver todos os seus defeitos. E, no entanto, é uma sorte para nós que a Natureza seja tão imperfeita, pois, de outro modo, não teríamos tido arte absolutamente nenhuma” (in Intenções. Quatro ensaios sobre estética).

As obras destes dois pintores relevam um sítio híbrido, configuram um território que nos leva a repensar a natureza das coisas, dos objectos, dos fenómenos da natureza, da arte, das suas matérias, exercícios e metodologias. Ou seja, equacionar os modos de ver e percepcionar, implicando o observador numa participação construtiva. A relação entre arte e natureza, entre forma viva e forma artística, revela-se um espaço de inteligibilidade capaz de esclarecer, heurísticamente, a própria forma do pensamento. O real transfigura-se, multiplica-se, demonstrando a sua imensa variedade. Como refere Maria Filomena Molder, “a forma é uma noção de poder alquímico e de valor limiar entre o ser e o aparecer. A natureza, a totalidade das formas, é tematizada a partir do eclodir de epifanias locais, através da experiência do aparecimento e desaparecimento de formas, o que expressa simultaneamente a transitoriedade e a transitividade próprias das epifanias locais, do seu desenho no espaço, da sua alteração, e a narrativa que por elas se faz, a narrativa da génese. Aquele que quer conhecer uma forma deve procurar tornar compreensível e partilhável esta reconciliação, esta aprovação entre o que está de passagem e o que permanece” (A Metamorfose das Plantas).

A experiência da natureza através do olhar destes dois artistas sublima o facto natural num contexto de arte, sem esquecer que "quanto à infinita variedade da Natureza, não passa de um puro mito. Não é nela que essa infinitude se encontra. Reside antes na imaginação, na fantasia, ou na cegueira calculada do homem que para ela olha." (Oscar Wilde, Intenções).

Antes do Início e Depois do Fim alerta para o predomínio da artificialidade no quotidiano e a consequente incapacidade actual de expor uma verdadeira experiência do Sublime, procura que as pessoas pensem e repensem sobre rotinas, sobre os conceitos de natureza interior e exterior, sobre emoções e sobre vazios.

Em parceria com a Escola Artística António Arroio, com quem já desenvolveu outros projectos no passado, o Atelier-Museu Júlio Pomar vai trabalhar com uma turma orientada pela professora e escultora Elsa Gonçalves, no âmbito da disciplina de Cerâmica – muitos dos primeiros “bichos” de Pomar foram feitos em cerâmica – os conteúdos e aspectos subjacentes a esta exposição.

No decurso da exposição publicar-se-á um catálogo [com edição do Atelier-Museu Júlio Pomar/ Documenta] e imagens das obras instaladas no espaço, e livro com uma entrevista com Hugo Canoilas, realizada ao longo de um extenso período, permitindo compreender, através da voz deste autor, as motivações e fundamentos inerentes às suas obras. O livro com a entrevista realizada a Hugo Canoilas e o catálogo será lançado durante o decorrer da exposição, em data a anunciar.

 

 


 

 

Exposições // PRESENTE

Exposição:
Júlio Pomar: Ver, Sentir, Etc.
Obras do Acervo do Atelier-Museu Júlio Pomar

Curadoria:
Sara Antónia Matos / Pedro Faro

Artista:
Júlio Pomar

25.10.2019 // 16.02.2020

Inauguração:
25.05 – 18 horas

 

A exposição “Júlio Pomar: Ver, Sentir, Etc. – Obras do Acervo do Atelier-Museu Júlio Pomar”, no espaço museológico do Centro Interpretativo do Tapete de Arraiolos, mostrando obras de várias épocas e apropriando-se do título de um texto escrito pelo artista em 1951, chama à atenção para a importância da familiarização com a obra de arte, da participação da experiência estética na formação do conhecimento e dos actos perceptivos – particularmente ver e sentir - nesse processo.

Embora em diversas épocas o conhecimento sensível e percpetivo tenha sido desvalorizado face ao raciocínio e ao conhecimento intelectual, nas últimas décadas do século XX, as teorias críticas procuraram reavaliar o papel do corpo na cognição, pensando-o como uma completude (uma continuidade com descontinuidades) e envolvendo-o como receptor e gerador no processo cognitivo. O corpo vivo não tolera a divisão corpo/mente, significante/significado, consciente/inconsciente, carne/tecnologia. Para experimentar um espaço e uma realidade é preciso um corpo, um corpo que percebe o mundo e devolve representações desse mundo, atribuindo-lhe sentidos. O domínio cognitivo que o corpo abrange abarca assim um raio de acção que excede a dimensão física do organismo, podendo afundar e alargar-se no espaço, em muitos casos, fazendo-o olhar o mundo como se fosse capaz de lhe tocar – domínio háptico – a que as obras de Júlio Pomar constantemente aludem. Isso é particularmente evidente nas obras da década de 70 em que a pintura ganha uma dimensão táctil através da colagem e da sobreposição de materiais, ou nas pinturas Navio Negreiro (2005-2012) e Cartilha do Marialva (2005-2012), em exposição.  Estas duas obras, que foram executadas no decorrer de um período longo, um intervalo entre 2005 e 2012, mostram como poucas que a sua pintura é composta de camadas sobre camadas, níveis sobre níveis, não se esgotando na imagem visível à primeira vista, sobre a camada superficial. Atendendo à sobreposição de camadas – e de tempos – pode dizer-se que a obra de Júlio Pomar se tem caracterizado por espessura e tactilidade, a qual requer do espectador uma experiência de afundamento e duração. A visualização da sua obra parece pedir ao espectador um movimento de aproximação e distanciação no espaço, reforçando a dimensão háptica e sensível que a reveste. Muitas vezes, entre as camadas de representação projectam-se sentidos inquietantes e enigmáticos dos quais os artistas desconhecem os significados. Todavia, tal como sugere Júlio Pomar no texto que dá nome esta exposição, a experiência da obra de arte pode não ser confortável para o ser humano porque o coloca em confronto com o desconhecido, a estranheza e o inquietante.